Você, que hoje corre os olhos por meus farrapos, jamais imaginaria que fui a mais radiante das damas da Bretanha. Trajes ricos não me faltavam, joias aos montes me foram compradas, criados me serviam banquetes e meus olhos sorriam com os luxos da nobreza. Agora definho com trapos velhos e rasgados, nem me recordo do gosto do vinho. Contudo, nem de longe sou tão feliz quanto na época em que morava em um imenso castelo. Contar-lhes-ei minha história para que entendam como tal mudança me foi imposta.
Quando ainda criança, meu reino travou uma batalha contra a Gavóia, pela posse das terras ao norte. Meu pai, o Duque Höel, tudo fez para que nossos soldados voltassem com vida, mas o exército inimigo os emboscou. Fez-se necessário pedir ajuda ao melhor cavalheiro da região. Este não queria terras, dinheiro ou joias, cobrou-nos minha posse, quando madura. Meu pai, sem opções, com muito pesar cedeu ao pedido do Conde Roel. Ora, nosso mais recente vassalo nos permitiu ganhar a guerra, mas menos lágrimas teriam sido derramadas se tivéssemos perdido.
Anos se passaram e a prometida data se aproximava. Eu sabia de meu compromisso e fui instruída para ser entregue ao meu futuro senhor. Contudo, ó Deus, por que motivo cruzaste o meu caminho com o dele? Apaixonei-me por Orri, vassalo de meu pai, e ele por mim. Nossa paixão era mais fulminante que a de Doette e Doon, o casal que ilustra inúmeras trovas de amor. Quando separados, mal respirávamos tamanho tormento a ausência um do outro, mas, quando juntos, nada se igualava a nossa amizade. Não me permitia me entregar a ele, pois pertencia ao Conde Roel. Mas, um dia, voltando de um passeio pelo pomar, nossos beijos tanto ardiam que fomos tentados pela serpente, e minha pureza se esvaiu. Meu pai, ao descobrir, ordenou que o queimassem por ter me destinado a tamanha vergonha.
Ora, no dia marcado para a execução do meu amigo, o destino, que já tanto havia testado nosso amor, mostrou que nos queria unidos. Não conseguiam acender a fogueira. Gotas, que considero lágrimas divinas em comoção com a minha tristeza, despencavam e impediam o fogo de se alastrar.
Meu pai considerou tal fato nosso perdão, e não querendo tentar Deus, aconselhou que nos escondêssemos do Conde Roel e negar-lhe-ia a minha posse. Fugimos para a floresta de Morois e nos abrigamos no eremitério do irmão Ogrin, que depois de ouvir nossos relatos, nos recebeu confiante de nossa graça divina.
O último rumor que chegou a nossos ouvidos é que Tristão, um vassalo do Rei Marcos, ajudou meu pai e meu irmão a derrotar o exército de Roel e saldar a dívida da Bretanha. Temo que seja apenas um boato e pretendo ir disfarçada à minha terra. Sinto saudades de minha família, dos luxos que tive outrora e de meu reino, mas, se para viver ao lado de Orri tiver que me privar de tais regalias, eu o farei sem relutar, pois a ferida causada pela flechada que atingiu meu coração, só encontra sua cura quando está ao lado do meu amigo.
Gabriela Delamare Nascimento Ruas





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